I.
AVISO: Este texto pode ser confuso.
Trata-se de um desabafo em fluxo, sem um início ou fim rigoroso.
Há muito tempo que me disse que vinha fazer isto, mas adiei — mais de um ano.
Nunca esqueci; fui relembrando, sem saber se tudo isto faz sentido ou se vale a pena continuar.
Talvez o que tenho vindo a perceber aos poucos seja que tenho de fazer o possível com o que tenho e que, além disso, não preciso de mais.
Não sei para quem escrevo, nem quem me vai ler ou compreender – se é que isso é possível.
Afinal, tendo a maior experiência comigo mesmo, não consigo atingir a total compreensão de mim.
E se há um mistério dentro de mim – algo que sinto ser necessário recordar, que não pode ser esquecido, embora eu o tenha esquecido –, sinto isso intensamente.
Escrevo por mim, simplesmente, sem saber onde isto pode chegar, nem se chegará a algum lugar.
Sinto que o que preciso de transmitir foi algo que me chegou.
Não sei se o ponho em prática;
perco-me, às vezes, numa vontade extrema de mostrar qual o caminho que considero correto.
Já me revoltei contra o ego. Já fui amigo dele, tive várias conversas, fases, análises e acordos. Por vezes, traço linhas nos contratos que faço comigo mesmo – que nem sempre percebo ou que, por vezes, me engano –, mas de certa forma, fazem parte de mim.
E não posso falar pelos outros; não sei como funcionam, nem como pensam, se eu mal compreendo o meu próprio pensamento.
Há momentos em que me sinto como um não-entendedor, alguém que não apanha o básico, aquilo que deveria ser óbvio.
Um estúpido.
Poucochinho
Sinto-me inferior quando outros afirmam ver o que eu não consigo ver. Mas, noutros momentos, sinto-me especial, inteligente, diferente – porque vejo algo que só eu consigo perceber, algo que, tenho a certeza, vejo.
A experiência é quase como uma energia subtil, convencida de si, não tanto especial, mas diferente.
Já pensei ser especial; tantas vezes me perdi nesse pensamento.
Agora, a minha frequência está ligada a não ser especial, mas simplesmente diferente.
E, para facilitar a perceção das coisas, assumo que todos os outros também são diferentes.
Ninguém é especial; toda a gente é diferente – e essa diferença torna-nos, afinal, comuns, todos ao mesmo nível, só que cada um olha para alturas diferentes.
Há quem olhe para baixo, outros para cima, há quem encare os olhos de quem está à sua frente; há quem desvie o olhar, quem sequer fale contigo porque se fixa num nível “superior”. O mesmo acontece no inverso: quando alguém se sente inferior, as pessoas olham para níveis distintos e, por vezes, esquecem que estão todas, em última instância, ao mesmo nível – todas diferentes, todas comuns, iguais na sua peculiaridade.
Se me perguntassem como entendo os outros – sem conseguir explicar totalmente isto, porque só conheço uma parte dos outros, quando estamos juntos em instantes – diria que fora desses instantes tudo se reduz a criações da minha cabeça, com base no que absorvi desses seres.
O meu ser é, afinal, a soma das experiências que vivi com seres – alguns muito expandidos, outros mais breves, uns prolongados e consistentes, outros interrompidos uma, duas, talvez três vezes ou mais, que voltam em fases pequenas ou grandes.
Em todos esses seres inspiro-me para moldar a minha forma de ser.
É um processo de mistura; acabamos por nos tocar, estamos todos interligados – não em linhas paralelas, mas em linhas cruzadas, que se entrelaçam.
Não sei como é a minha linha.
É uma linha, um caminho que segue sempre para a frente – tal como entendo o tempo.
Eu percebo o tempo a avançar; penso que entendo o futuro, o que se coloca à minha frente, e imagino o que há além. Recordo-me do passado e, sem me aperceber, altero partes dele – talvez para me proteger, talvez para me esconder. Mas é assim que é.
No futuro, sinto como se jogasse numa lotaria, com pouca probabilidade de acertar; e, quando acerto, nem sempre é exatamente o que queria – é como se dissesse: “aqui está isto e aquilo”, o que se aproxima do que almejava. Ponho um significado, ligo um sinal e afirmo que é assim. Sinto que o universo está comigo – não porque o tenha previsto, mas porque, de certa forma, pedi e ele entregou-me um pedacinho do que queria. Nem tudo ocorre como imaginei, mas, quando acontece, acerto; era isto que procurava. A maior parte das vezes, não é assim, mas às vezes acontece e, mesmo assim, não era exatamente o que queria.
São pensamentos que tenho notado na minha vida – pensamentos negativos, positivos e até neutros.
Opostos que se complementam: o rápido e o lento fazem parte da mesma velocidade, e a vida corre – às vezes devagar, noutras, mais depressa. É impressionante como consigo perceber o tempo de formas tão diversas; contudo, se pensar profundamente, apercebo-me de que ele passa depressa, quase imperceptivelmente, em segundo plano, sempre a correr. Criámos o tic-tac – que, com o tempo, se tornou algo chato – mas deixamos tudo controlado. Há relógios silenciosos por todo o lado e, mesmo silenciosos, marcam a hora, que continua a pesar em nós.
Na minha percepção, o tempo segue sempre para a frente – como se o sentido de passado e futuro se dirigisse, de sul para norte, por exemplo.
Ir para a frente não significa ser positivo ou negativo;
ser negativo não quer dizer ser mau ou bom.
Dá para brincar com tudo isto.
Surge o paradoxo: nada se explica na sua totalidade, porque as coisas, na sua totalidade, simplesmente acontecem – sem justificação, porque o universo assim o quer.
Do que entendo, compreendo que não entendo tudo.
Imagino uma entidade que representa o todo, com níveis de compreensão desbloqueados, mas estou longe de conseguir imaginar como se processa o universo, os multiversos, tudo o que existe, numa única peça.
Com o “software” que tenho, a compreensão total é impossível.
Se um dia tiver acesso a isso – com ou sem este corpo – terei de descobrir por mim.
Nunca me chegou uma resposta; talvez tenha chegado e eu não tenha apercebido, ou talvez queira apenas continuar a questionar, a existir, porque, além do existir, há também o não-existir. Existe o que não pode ser conhecido, o incognoscível – aquilo que está inacessível à inteligência humana. Isto talvez não se manifeste na existência, mas sim na não-existência, pois defino a existência como a minha percepção de ser. Tudo o que está além disso é o que não tenho acesso: a não-existência.
Eu existo. Sou existencialista. Estendo-me sobre estes assuntos porque, simplesmente, quero continuar a existir – a ideia do que sou.
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